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julho 19, 2013

Lar São Vicente de Paulo - Foto TV Sudoeste
Os princípios católicos mais difundidos em todo o mundo sempre foram à valorização do amor a Deus e ao próximo. Todavia, ao longo dos séculos a Igreja Católica Apostólica Romana foi se afastando desses conceitos e se fortalecendo, principalmente, como uma importante Instituição política, monopolizando, principalmente, o conhecimento. Seu autoritarismo se perpetuou por séculos a fio; foi na Idade Média, porém, que se sentiu seu verdadeiro poder dominador. É fato que toda e qualquer religião é controlada pelos homens, e nós, seres humanos, somos falhos em inúmeros aspectos. Vez ou outra surge alguém com esse “nobre” sentimento cristão de perpetuação do amor ao próximo e marca na própria história da humanidade suas influências; a Sociedade São Vicente de Paulo, indubitavelmente, é uma dessas marcas que nos mostra o verdadeiro valor do “eu cristão” e nos faz questionar nosso papel social frente ao catolicismo e sobre o que faz realmente as religiões.

Fundada em Paris, em 1833, por Antônio Frederico Ozanam, a Sociedade Vicentina tem como patrono o santo São Vicente de Paulo, conhecido por sua piedade ao pobre e que dizia que “jamais devemos perder de vista o divino modelo! É preciso ver Jesus Cristo no pobre, e ver no pobre a imagem de Cristo”. Baseados no princípio da caridade ao próximo, a Sociedade São Vicente de Paulo se fortaleceu como uma instituição independente, sem perder seu caráter católico e obediência às autoridades eclesiásticas, buscando sempre estar em “sintonia” com a Santa Sé. O principal objetivo da sociedade é dar assistência às pessoas mais necessitadas, buscando sua edificação espiritual através da caridade. Ozanam dizia: “Que fazer para sermos verdadeiros católicos? Fazer o que agrada mais a Deus: Socorramos nosso próximo como fazia Jesus Cristo e coloquemos nossa fé sob a proteção da caridade. Vamos aos pobres!”.

Aberta a qualquer um que queira prestar serviços a quem mais precisa, os pobres, a Sociedade Vicentina encontra-se espalhada no mundo todo e está presente em diversos países das Américas e da Europa, como França e Inglaterra. No Brasil existe a maior concentração de vicentinos do mundo, sendo Minas Gerais a maior concentração do nosso país, segundo conta Leonardo Borges de Souza, presidente do “Lar São Vicente de Paulo”. Ele ainda revela que em todo o mundo existem cerca de aproximadamente 156 associações, espalhadas em inúmeros países.

Aqui, a comunidade vicentina presta serviços aos idosos que não podem estar sob os cuidados da família ou que estejam completamente sozinhos. Todavia, não é apenas o cuidado para com os idosos que torna alguém um vicentino, é o “apoio e ajuda a comunidade em geral”, enfatiza Leonardo. Mais conhecido na cidade como “Asilo São Vicente”, a entidade em si é uma obra unida à própria Associação Vicentina e que está presente na cidade desde 1933, como vila vicentina, mas somente em 14 de outubro de 1957 é que se estabeleceu como uma instituição oficial. “O asilo é uma parte jurídica ligada à Associação São Vicente de Paulo. Não é a maior parte da associação. É uma ramificação, podemos dizer”, esclarece.

A “Vila Vicentina” era uma comunidade com diversas casas que ficavam ao redor de onde hoje se estabelece a Instituição do Lar São Vicente. Era uma espécie de colônia e possuía cuidados bem diferentes dos de hoje. Com o aumento de idosos e a necessidade de mais acomodações, na gestão de Sebastião Caetano da Silva construiu-se um pavilhão que comportasse cerca de 30 pessoas, isso contribuiu para que se fosse desmanchando as casas que, já muito velhas, não compensando suas reformas. Leonardo recorda ter entrado na diretoria do Lar São Vicente de Paulo no termino do mandato de Sebastião Silva, como tesoureiro e Paulo Queiroz como presidente, dando continuidade ao projeto. “Na época as honras da inauguração do novo pavilhão foram feitas pelo próprio Sebastião. Embora tivéssemos dado continuidade ao projeto, a iniciativa das obras foram dele”, relembra.

Leonardo ainda conta que na Sociedade Vicentina de Paraíso há cerca de aproximadamente 120 membros ativos, e destaca a importância de alguns como Carmo Paschoini e do já falecido Amadeu Guidi. “Amadeu tinha uma filha que morava no Canadá, a Ana Maria Guidi, que em uma visita resolveu ajudar o asilo com uma parte da renda de um “carnaval brasileiro” que organizava lá mesmo, para ajudar os hospitais”, conta Leonardo Souza. Segundo ele, com parte da renda foi possível fazer mais ampliações no asilo, mas foi difícil administrar as obras devido à alta inflação, que na época chegou a 100%.

Vivem atualmente no asilo 72 idosos, que contam com a colaboração de funcionários que dão assistência em tempo integral aos moradores e de médicos que fazem visita esporádicas para ministrar remédios e cuidados especiais aos idosos. Embora sejam tratados com extrema dignidade e atenção, Leonardo revela que a maioria desses idosos preferiria estar vivendo com a família, mas que por motivos, na maioria das vezes financeiros, acabam indo parar ali. “Acho isso natural. Quem não gostaria de estar vivendo ao lado da família?”, destaca. Sobre o papel da família, ele conta que hoje em dia os familiares são mais presentes na vida de seus idosos, mas que nem sempre foi assim. “Os familiares tinham medo de deixá-los aqui e depois ter que buscar de volta, e desapareciam. Mas, hoje, graças a Deus, essa perspectiva mudou e muito”. No asilo esses idosos recebem cuidados de extrema qualidade e as sextas-feiras, com uma parceria entre a Unimed e Acqua Sport Natação, é doado a esses idosos um dia de lazer na própria Acqua Sport, para fugirem um pouco da rotina maçante.

No entanto, apesar de contar com parte da aposentadoria dos moradores e ter a isenções de alguns impostos, os custos com o Lar São Vicente ainda são muito altos, tendo que contar ainda, não somente com o apoio de vicentinos da cidade, mas com a própria comunidade paraisense. Leonardo ressalta a importância das festas beneficentes, como a própria “festa do asilo”, que se tornou uma tradição na cidade, para a obtenção de recursos que são revertidos para melhoramentos do próprio recinto e para arcar com gastos de comida e remédios para esses idosos. Neste aspecto vemos o quanto é necessário e importante a colaboração e participação do cidadão paraisense para o Lar São Vicente de Paula. As ações desses colaboradores do asilo refletem o ápice do amor humano; e esse amor e cuidado que tem como recompensa o bem estar dos nossos idosos merece nossa atenção e iniciativa. “Qualquer um pode contribuir, seja financeiramente, com doações e até mesmo dando atenção a esses idosos. Eles gostam de conversar!”, ressalva Leonardo Souza.

Por João Gustavo
Matéria produzida originalmente para a "Revistas Expressão Livre"
- Ano 3, Edição 38, Julho de 2013

Postado sexta-feira, julho 19, 2013 por Unknown

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junho 17, 2013

Perdido na biblioteca da minha cidade, encontrei este romance que, de forma arrebatadora, surpreendeu-me. Um romance histórico sobre as raízes da minha cidade. Negra Efigênia é uma verdadeira obra prima!
Edição, arte e diagramação por Juvenal Marques

“Negra Efigênia” – paixão de senhor branco (Ed. Edicel, 1966), não é apenas um romance histórico narrado acerca de um triste e lamentável episódio ocorrido em nossas terras: a escravidão no Brasil. Muito alem disto, é o apelo a um passado que não se deve ser esquecido... um passado que transformou nossas vidas e ainda mantêm raízes de suma importância para o nosso desenvolvimento. Aos negros, hoje vítimas do preconceito, da intolerância e do estereótipo de marginalizados, deve-se o progresso de uma nascente “Paraíso” que sentia próximo o fim do tratamento e da condição que era posta aos africanos, que arrancados do seio de suas terras, trabalhavam de sol a sol sob a condição de meros escravos, de animais sem alma que nada mereciam.

Anajá Caetano, negra e descendente de angolanos da tribo dos “Quiôcos”, buscou tratar neste romance todas as raízes de sua cultura negra, desmistificando todo e qualquer estereótipo que ao longo das décadas a história estigmatizou. Em sua obra, ela narra o nascimento de São Sebastião do Paraíso e todo o desenvolvimento socioeconômico que a escravidão trouxe à região. Fundada à sombra se Jacuí, a paróquia dedicada a São Sebastião deu-se graças à doação de um lote de terras pela família dos Antunes Maciéis, na tentativa de apagar de seu passado a visão de “cangaceiros” que todas da região tinham de sua família.

Contudo, este é apenas o ponto de partida do romance que se desenvolverá tendo como uma das grandes personagens da obra a “Fazenda de Santa Isabel”, conhecida por todos da região como “Fazendo do Tronco” - devido ao tratamento cruel que dona Sinhá - a personificação de todo este período histórico, dava aos seus servos. Aliás, o romance se baseia praticamente em personagens caricatos, carregados de simbolismo, postos na trama cada um com o seu sentido. Talvez o teor de qualidade que esta jóia da literatura paraisense carrega, fundamenta-se na preocupação que a autora tem ao usar personagens com um sentido proposital, quase que como se fossem sinônimos para cada idealização deste período histórico. É isto que nos cativa e nos prende da primeira a última página.

Padre Thomás, figura fundamental n a trama, vê na liberdade dos escravos uma forma de impulsionar a economia regional, com base no que vinha acontecendo na província de São Paulo. Há um destaque na obra tratando a respeito do desenvolvimento econômico das fazendas que praticavam uma espécie de colonato, onde os escravos livres trabalhavam tendo um lote de terra onde podiam produzir para si mesmos, sendo motivados, assim, a produzir mais e mais. Alem disto, destaca-se também a religião. O padre, que via os negros escravos como ignorantes do ponto de vista religioso, tem sua visão amadurecida ao longo do romance, passando a enxergar o respeito mútuo que deveria haver entre as duas raças e suas crenças, que se fundiam em uma só.

Enfim, Anajá Caetano eterniza-se na história de nossa literatura municipal com este romance épico. Pouco se sabe a respeito da autora, mas o espírito de seus ancestrais podem ser sentidos em cada ritual narrado de forma sublime e fiel em “Negra Efigênia”. A linguagem impecável com que é contada faz da obra única.

Mais do que uma recomendação, “Negra Efigênia” é praticamente uma leitura obrigatória e o livro, perdido em sebos de todo Brasil é uma relíquia de valor incalculável para nossa cidade e pode ser lido gratuitamente na Biblioteca Municipal de São Sebastião do Paraíso, onde existem dois exemplares em razoável estado de conservação.

Matéria produzida originalmente para a "Revistas Expressão Livre"
 -  Ano 3, Edição 37, Junho de 2013

Postado segunda-feira, junho 17, 2013 por Unknown

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Cultura”, do latim “colere”, significa cultivar. Em suma podemos dizer que cultura é tudo aquilo que é produzido pelo homem e o identifica enquanto ser humano. Embora seja um conceito extremamente complexo e relativo, podemos ainda dizer que é a junção de tudo aquilo que define um povo ou sociedade; hábitos, culinária, língua, costumes, crenças, vestimentas e até mesmo o comportamento. É fácil traçar o perfil cultural de determinada sociedade e imaginar em um indivíduo todas essas características; o que não é fácil, porém, é imaginar em um país tão plural quanto o nosso características próprias.

A imigração foi um marco definitivo na história da sociedade brasileira e contribuiu para toda a nossa riqueza cultural. Desde a colonização até meados do século XX o Brasil recebeu um grande número de imigrantes europeus e asiáticos. E embora isso não tenha se dado em um processo inteiramente pacífico, contribui indubitavelmente para a consolidação da nação brasileira como um estado múltiplo: raças, crenças, costumes e ritmos.

Portugueses, espanhóis, africanos, italianos, alemães, franceses e japoneses. Esses foram os principais imigrantes que encheram nosso país com suas diversidades culturais e contribuíram para a miscigenação cultural aqui existente. Todavia, um desses grupos se destacou pelo grande número de imigrantes que desembarcaram no país: os italianos. Estimativas apontam que entre o século XIX e XX cerca de 1,5 milhões de imigrantes italianos vieram residir no Brasil.

Tendo sido em 1870 a chegada dos primeiros imigrantes italianos, o aumento dessa imigração se deu entre as décadas de 1880 a 1910. Fato este estimulado pela abolição da escravatura, pois os ex-donos de escravos não queriam admitir o trabalho assalariado para essa população que durante 300 anos trabalharam sobre um forte regime de opressão. Outro fator de extrema importância e que fez com que essa imigração também fosse planejada foram os ideais do “darwinismo social”, amplamente difundido pela comunidade científica da época e que basicamente dizia que uma pessoa podia conter características biológicas que a tornasse superior a outras. Embasado nesse conceito, o governo brasileiro, acreditando não ser possível se desenvolver por ser uma população basicamente composta por negros e mestiços, começou a planejar a imigração no país; e os italianos pareciam ser a melhor resposta para suas necessidades, pois alem de “brancos” eram católicos.

Um grande número de italianos se estabeleceu no sul e no sudeste e boa parte desses imigrantes vinha ludibriada pelas condições de morada no Brasil. Vendiam tudo o que tinham para tentar a vida aqui, fosse para trabalhar nas lavouras de café, indústrias e comércios ou simplesmente para empreender, como a família Matarazzo que construiu um verdadeiro império industrial no coração de São Paulo. Todavia, parte dessa imigração foi motivada pela crise de empregos na Itália no século XIX, devido à crescente industrialização no país.

Esse fluxo de imigrantes, porém, começou a diminuir no início do século XX, com a divulgação de noticias na imprensa italiana que apontavam as péssimas condições de vida no Brasil. Dentre essas notícias, algumas relatavam que esses imigrantes não podiam abandonar o Brasil por causa de dívidas feitas com os proprietários de terra, que muitas vezes arcavam com os custos das viagens. Com base nisto, o governo da Itália emitiu um decreto que proibia a imigração subsidiada desses cidadãos, o “Decreto Prinetti”. Alem disto, em 1920, Benito Mussolini com suas medidas protecionistas, começou a controlar rispidamente o fluxo de imigração.

São Sebastião do Paraíso foi uma das cidades do sudoeste mineiro que recebeu o maior número de imigrantes e se orgulha disto. Tamanho orgulho se demonstra no fato de, entre os anos de 1971 a 1972, na gestão do então prefeito Luiz Ferreira Calafiori, ter sido construída uma obra dedicada aos imigrantes italianos, lugar batizado como “Praça do Imigrante”, próximo a prefeitura e, em 1984, a Câmara de Vereadores outorgou o título de “cidadão-honorário post morten” aos italianos, como forma de agradecimento às contribuições dessa gente ao povo Paraisense.

Luiz Ferreira Calafiori, figura de grande importância para a história e cultura de São Sebastião do Paraíso, autor de diversas obras literárias, dentre elas “São Sebastião do Paraíso – história e tradição” destaca a importância cultural que a cidade tem ao privilegiar suas memórias. Segundo ele a construção do memorial na “Praça do Imigrante” foi uma forma de tornar viva essa lembrança da imigração, que com o tempo veio se perdendo. Documentos históricos apontam que a primeira leva de imigrantes italianos para a cidade deu-se no ano de 1893, e foi encomendada pelo Coronel Francisco Adolfo de Araújo Serra, no período da chamada “grande imigração”. Muitos dos escravos libertos naquele período acabaram se fixando nas próprias fazendas onde trabalhavam, mas o rápido crescimento da cafeicultura e a chegada das ferrovias para o transporte de carga tornava necessária mais mão de obra, que com o fim do tráfico negreiro e logo depois a escravidão, tornou-se escassa.

O sudoeste mineiro foi uma das regiões que recebeu o maior número de imigrantes no Brasil, o que contribuiu para que grande parte da população paraisense fosse composta por descentes. “Hoje eu não acredito ser tanto, mas há 20 anos cerca de 50% da população paraisense era composta por descendentes de imigrantes e sua maioria era italiana”, enfatiza Luiz Ferreira.

Embora tenha tido grande influencia na formação de Paraíso, a pouca herança cultural que restou desses imigrantes veio se perdendo com o tempo. A explicação é simples, porém de uma complexidade profunda. Com o governo de Getúlio Vargas e a Segunda Guerra Mundial estourando lá fora, muitos desses imigrantes foram perseguidos. A Itália pertencia ao “Eixo”, na Segunda Guerra, composto também por Alemanha e Japão; era natural que esses italianos torcessem por sua nação na guerra, entretanto isso não era aceito aqui. O Brasil por interesses econômicos ficou ao lado dos Aliados, composto pela EUA, Inglaterra e França. Mas apesar de na época vivermos um estado fundamentado pelos ideais do “Eixo”, a nação brasileira manteve certa neutralidade até o ano de 1942, quando submarinos alemães e italianos iniciaram um ataque contra as embarcações brasileiras no oceano Atlântico. Foi assim o Brasil definiu seu rumo na guerra.

Luiz Ferreira conta que essa guerra foi um fator decisivo para arrefecer esse sentimento de orgulho italiano. Na época houve uma opressão muito forte e perseguições a possíveis “elementos” do “Eixo”. As noticias que vinham da Europa e eram transmitidas pelo rádio eram recebidas com expectativa por esses imigrantes que, segundo conta Luiz, eram vigiados até mesmo por vizinhos.

É notável a importância que esses cidadãos tiveram, não apenas para a cidade, mas para as vidas dos cidadãos. A imigração italiana foi um marco na construção da comunidade paraisense e suas influências, mesmo que timidamente, ainda podem ser sentidas. Embora grande parte da população negligencie suas próprias raízes culturais e as deixe de lado, o dia da imigração é uma data que merece ser lembrada e exaltada, afinal, o que seria do Brasil – e da cidade de São Sebastião do Paraíso – sem a imigração? Certamente um país monocromático.

Por João Gustavo
Matéria produzida originalmente para a "Revistas Expressão Livre"
 -  Ano 3, Edição 37, Junho de 2013

Postado segunda-feira, junho 17, 2013 por Unknown

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maio 12, 2013

Locomotiva da E.F.S.M

Houve um tempo no Brasil em que o único meio de transporte disponível às pessoas era feito sobre quatro patas. O transporte era lento, problemático, porem, era o que se dispunha naquele período. Estamos falando de meados do século XIX, época em que a nação brasileira ainda era governada pelo príncipe regente D. Pedro II

Foi o empresário Irineu Evangelista de Souza, o barão de Mauá, o responsável pela construção da primeira ferrovia no país, uma tecnologia vinda do outro lado do Atlântico, mais precisamente da Inglaterra. Assim, em 30 de Abril de 1854, a Locomotiva Baronesa, nome dado em homenagem a esposa do Barão, Dona Maria Joaquina. Um curto trecho de aproximadamente 14 quilômetros, mas que representou uma revolução descomunal na história do transporte brasileiro. 

A partir de então as ferrovias se desenvolveram progressivamente e foi no início no século XX, com a crescente produção cafeeira no país, que elas passaram por um acentuado processo de expansão no interior brasileiro. O país que caminhava lentamente passou a deslizar sobre extensos trilhos, aquecendo a economia nacional e rompendo fronteiras. 

As ferrovias marcaram a vida de muitas pessoas e se tornaram famosas por suas historias como a “Estrada de Ferro São Paulo e Minas”, que ligava a Estação de Bento Quirino, da Cia. Mogiana, nas proximidades de Ribeirão Preto, a São Sebastião do Paraíso. 

Histórico da Ferrovia 


A “São Paulo e Minas” passou por várias crises, até que em novembro de 1971, foi incorporada a Ferrovia Paulista S/A, a FEPASA, em uma iniciativa do governo de São Paulo de unificar a malha ferroviária no Estado, o que veio a culminar com seu fim. 

A ideia de construir uma ferrovia que ligasse S.S. do Paraíso a Bento Quirino surgiu com o desenvolvimento da cultura cafeeira no oeste Paulista, mais precisamente na região de Ribeirão Preto. 

1890 - Originalmente a “São Paulo e Minas” foi construída para atender apenas fazendeiros da região se São Simão à Freguesia de Serra Azul e tinha o nome de “Campainha Melhoramentos de São Simão”. Contudo, uma crise financeira levou a empresa à falência. 

1908 - A empresa passa para o controle estrangeiro e sua razão social muda para “The São Paulo and Minas Railway Company”, adquirindo assim, do Coronel Pimenta de Pádua, o direito de ir até São Sebastião do Paraíso. 

1911 - Quando a Câmara de S. S. do Paraíso aprovou a concessão de transferência para efetivar o projeto da estrada de ferro que ligasse São Paulo a Minas, a estrada já estava chegando a Paraíso, numa extensão de 136 quilômetros, construída a partir de Altinópolis. 

1922 - A “Companhia Eletro Metalúrgica Brasileira”, que se instalara em Ribeirão Preto, adquiriu a ferrovia por 100 mil libras esterlinas, o equivalente a aproximadamente 304 mil reais, com o intuito de intensificar o transporte de matérias primas necessárias a sua indústria, a fim de aproveitar as jazidas de minérios e matas existentes situada no município de Jacuí. 

1929 – A Metalúrgica Brasileira começou a passar por uma serie de crises e, em novembro desse ano foi decretada sua falência. Tudo consequência de um efeito dominó que se iniciou com o crash da bolsa de valores de Nova Iorque, além dos impagáveis empréstimos concedidos pelo governo do Estado, e, finalmente, a greve de funcionários ocorrida em abril daquele mesmo ano. 

Na tentativa de amenizar sua situação, e Empresa fez uma proposta ao governo do Estado de entregar a “São Paulo e Minas” a sua administração, a qual foi categoricamente recusada. 

1930 - Abandonada, em setembro daquele ano, a “Estrada de Ferro São Paulo e Minas” passou a intervenção do Estado. 

1931 - “São Paulo e Minas” teve seu tráfego reaberto e suas linhas reparadas, contudo, por uma questão de jurisdição, não foi possível ser realizadas melhorias no trecho mineiro e, por esta razão, o trafego até São Sebastião do Paraíso se manteve fechado. 

1934 - Por ordem do Juízo Federal de São Paulo, o governo autoriza a reabertura do trecho mineiro, determinando também o alargamento da bitola (medida entre os trilhos) de 0,60m para 1,00m e o reaparelhamento do sistema de transporte. 

Com as melhorias e o alargamento da bitola a “São Paulo e Minas” pode aumentar sua capacidade de transporte e manter um tráfego mutuo com a Mogiana, desempenhando um importante papel para economia dos dois Estados, com o transporte de carga do sudeste mineiro diretamente para as zonas da Alta Mogiana e Alta Paulista. Nos anos que se seguiram a ferrovia passou por diversas modernizações, entre elas a introdução de tração a diesel. 

1967 - “Estrada de Ferro São Paulo e Minas” passa a ser administrada pela Companhia Mogiana de Estrada de Ferro. 

1969 – A Empresa é transforma em sociedade de economia mista, a fim de possibilitar sua incorporação a FEPASA (Ferrovias Paulistas S/A). 

1971 – O abandono da “São Paulo e Minas” se deu em virtude da inviabilidade de se manter uma linha que já não comportava mais as necessidades do Estado. Sendo muito caro ajustá-las as suas necessidades, devido à geografia do trecho mineiro, sendo imprescindível o reforço de pontes - que comportavam apenas locomotivas leves - e amenizar as freqüentes curvas, agregava muitos custos com os quais a FEPASA não podia arcar e naquele ano, a linha permanentemente extinta. 


O fim de uma era e o início de outra


Indubitavelmente as estradas de ferros desempenharam no país um importante papel econômico, do inicio em 1854 até seu auge em meados da década de 1960. 

Foi, entretanto, a partir daquela mesma década que as mesmas começaram a sentir as proximidades de seu declínio, desafiadas pela construção de vastas rodovias e investimentos maciços no mercado automobilístico. 

Com o desaquecimento na construção ferroviária para a abertura de espaço na construção de rodovias e a implantação da indústria automobilística, no governo de Juscelino Kubitschek, no período de 1956 a 31 de janeiro de 1961, as ferrovias foram se acabando com a mesma rapidez que seu progresso. 

A antiga “Estrada de Ferro São Paulo e Minas” deixou poucos herdeiros, como a Estação de São Sebastião do Paraíso, hoje utilizada em nossa cidade como Casa da Cultura onde esporadicamente ocorrem alguns eventos. Os trechos declinados onde ainda é possível ver os trilhos de ferro que, outrora, transportaram sonhos, esperanças e progresso e ainda se mantêm presentes na historia de nossa cidade e a antiga vila de Bento Quirino, que se ergueu graças a construção de sua estação. 


Vida de Ferroviário 


Jerônimo Ferreira da Silva, 66 anos, aposentado e pai de três filhos passou grande parte de sua vida trabalhando como ferroviário nas Ferrovias Paulistas S/A, a FEPASA. Uma longa trajetória de 35 anos, repleta de altos e baixos e que marcou profundamente sua vida. 

De origem humilde, durante toda infância e juventude viveu e trabalhou no meio rural, ate decidir abandonar a vida sofrida do campo e ingressar na FEPASA, onde constituiu carreira e se aposentou. 

O começo não foi fácil. Teve problemas com o seu pagamento e, por consequência do trabalho, foi obrigado a se distanciar da família por um período de cinco anos, no qual morou numa colônia de ferroviários, aqui perto, na baixada do Baú de Santa Cruz, onde passava a antiga linha férrea. 

Quando a situação melhorou, se mudou com a família para lá e tempos depois, atendendo a ordens superiores, ele e sua família migraram para São Simão, onde se estabeleceram por 14 anos. 

O fato é que Jerônimo, assim como todos aqueles que seguiram a carreira de ferroviário, nunca se estabeleceu por muito tempo num mesmo lugar e vivia assim, como um peregrino, ligado apenas à linha do trem e onde quer que ela necessitasse de seus serviços. 

O trabalho era duro, as ferramentas pesadas e, na longa trajetória de sua vida com as ferrovias, fez de tudo um pouco, carpiu os arredores das linhas, levantou juntas (o engate de um trilho a outro), que saiam do lugar com o peso das locomotivas, passou noites frias e chuvosas ao relento, conferindo e mantendo a segurança para que os trens passassem com segurança por seu pedaço. 

Hoje, Jerônimo Ferreira ainda trabalha, mas como servente de pedreiro. “É a natureza, não suporto ficar parado”, ele diz satisfeito. Assim, como tantos outros trabalhadores humildes, o ex-funcionário da FEPASA, aposentado há 12 anos, não nega suas origens e, com muito orgulho, ostenta sua historia. Criou e encaminhou bem seus filhos na vida, e ainda realizou o grande sonho de conquistar sua casa própria, o que, há alguns anos, atrás lhe parecia distante, mas que agora é um fato concreto em sua vida, tudo graças ao suor de seu trabalho e a vida de ferroviário. 

Por João Gustavo e Rafael Cardoso
Colaboração: Instituto ABC

Matéria produzida originalmente para a "Revistas Expressão Livre"
 -  Ano 3, Edição 35, Abril de 2013


Postado domingo, maio 12, 2013 por Unknown

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